Em meio à Copa do Mundo, o futebol perdeu espaço no sábado (27) na Cidade do México. Às vésperas da maior marcha LGBTQIA+ do país, uma sequência de assassinatos sem solução reacendeu o medo da violência e levou milhares de pessoas às ruas sob o lema “Paz e Segurança”.
A 48.ª edição da “Marcha del Orgullo” começou muito antes de o cortejo ocupar a avenida Paseo de la Reforma. Nas semanas que antecederam a manifestação, uma sequência de homicídios de pessoas da comunidade LGBT +voltou a expor a dificuldade do país em investigar e punir crimes motivados por preconceito.
Em 13 de maio, Ashley Fernando, 33, foi encontrado carbonizado quatro dias após desaparecer em San Mateo Texcalyacac, no estado do México. Dias antes, Fanny N., mulher transexual de 27 anos, havia sido encontrada morta dentro de casa em Mexicaltzingo. Em Tapachula, no estado de Chiapas, o cabeleireiro Sergio Loranca também foi encontrado morto com sinais de violência. Nenhum dos casos foi esclarecido.
“É um ciclo de violências sem solução. Quando pensamos estar seguros, uma catástrofe chega”, afirma Cristian Garay, 35, integrante dos coletivos responsáveis pela organização da marcha.
As mortes recentes fizeram Garay voltar a um trauma ainda aberto. Um dia depois da Marcha do Orgulho de 2025, o ativista Jesús Laiza González, um dos mais conhecidos do país, foi encontrado morto ao lado do companheiro, Isaí López Rodríguez, na divisa entre os estados do México e Hidalgo. O crime também permanece sem solução.
O sentimento de insegurança, diz Garay, é alimentado pela ausência de uma legislação nacional que trate de crimes motivados por preconceito e pela imprevisibilidade das punições. Embora o conceito de crime de ódio seja utilizado por autoridades e organizações de direitos humanos, o México não possui uma lei federal que tipifique homicídios motivados por preconceito contra orientação sexual, identidade de gênero, raça, religião ou outras características da vítima.
Na prática, assassinatos de pessoas LGBT+ costumam ser investigados como homicídios comuns. Em alguns estados, a motivação discriminatória pode agravar a pena ou aparecer em legislações específicas; em outros, não há previsão semelhante. Para especialistas, essa fragmentação dificulta investigações, condenações e até a produção de estatísticas nacionais.
A ausência de dados oficiais é outro reflexo desse cenário. O Observatório Nacional de Crimes de Ódio contra Pessoas LGBT+, ligado à organização Letra S, registrou ao menos 80 assassinatos de pessoas LGBT+ no México em 2024, a maioria de mulheres trans. Como o país não possui um sistema nacional para contabilizar esses casos, o levantamento é elaborado com base em denúncias e registros na imprensa.
O cenário contrasta com o brasileiro. Embora o Brasil também não tenha um tipo penal denominado “crime de ódio”, desde 2019 o Supremo Tribunal Federal equiparou homofobia e transfobia ao crime de racismo, garantindo proteção uniforme em todo o território nacional.
Diante desse contexto, organizações da sociedade civil mexicana passaram a fortalecer redes próprias de proteção. Uma das iniciativas mais recentes foi uma campanha do Grindr, um dos principais aplicativos de relacionamento voltados ao público LGBT+, com orientações para tornar encontros presenciais mais seguros.
O medo, porém, não impediu a festa.
Pouco depois das 11h, a base do Anjo da Independência desapareceu sob bandeiras coloridas, carros alegóricos, música e milhares de pessoas que seguiram em direção ao Zócalo. À frente do cortejo vinham atletas LGBT+. Logo atrás, famílias inteiras, artistas, drag queens e coletivos transformavam a principal avenida da capital mexicana em um desfile de celebração e resistência.
A coincidência entre a Copa e a marcha transformou o desfile em uma vitrine internacional. Entre bandeiras do arco-íris, multiplicavam-se as camisas de seleções. Turistas que vieram ao México para acompanhar o torneio interrompiam o caminho para fotografar o cortejo; alguns acabavam caminhando ao lado dos manifestantes.
Equatoriana, a professora Claudia Hernández, 45, acompanhava o filho Carlos, 15, enquanto ambos vestiam camisas da seleção do país, próximo adversário do México na Copa. “A vida é para ser compartilhada e celebrada em todas as suas formas”, afirmou. “Sou a mãe mais feliz do mundo e quero que ele nunca esqueça disso.”
Antes do evento, a prefeitura da Cidade do México tentou alterar o percurso da marcha para evitar conflito com a Fifa Fan Fest instalada no Zócalo. A organização resistiu e manteve o trajeto tradicional até a principal praça do país. Foi ali que Penélope de la Rosa, 73, que afirma ter participado de todas as edições da marcha, resumiu o significado daquele evento.
“Não sei se o México vai ganhar a Copa. Mas conseguir fazer esta marcha todos os anos é como conquistar o mundo”, disse.
O repórter viajou a convite do Grindr

