Redação Tribuna do Norte
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Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal
O terceiro capítulo da Encíclica Magnifica Humanitas (MH) constitui o núcleo da reflexão de Leão XIV sobre a inteligência artificial. Contudo, o tema não é abordado a partir de uma perspectiva meramente técnica. Após apresentar os fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja, o Papa apresenta a revolução digital à luz de uma pergunta decisiva: o que estamos construindo? (MH 90). A imagem bíblica que orienta sua reflexão contrapõe a Torre de Babel, símbolo do domínio e da autossuficiência, à reconstrução de Jerusalém sob a liderança de Neemias, expressão da responsabilidade compartilhada e do cuidado com o bem comum.
Uma das preocupações centrais de Leão XIV é o avanço do “paradigma tecnocrático” (MH 92). O problema não está na técnica em si, mas na tendência de permitir que a lógica da eficiência, do lucro e do controle se torne o critério supremo das decisões humanas. A inteligência artificial, juntamente com outras tecnologias emergentes, pode contribuir enormemente para o desenvolvimento humano integral; mas, devido ao seu poder, também pode acelerar processos de desumanização quando não é orientada por critérios éticos e antropológicos (MH 93-94).
Leão XIV deixa claro que não é adversário da inteligência artificial nem das novas tecnologias. Pelo contrário, reconhece seus benefícios em numerosos campos e afirma que elas podem tornar-se uma ajuda preciosa para a humanidade (MH 93; 100). O que ele rejeita é uma visão ingênua ou acrítica da tecnologia. Por isso, insiste que o progresso técnico deve ser acompanhado por um progresso moral e social, sob pena de voltar-se contra o próprio ser humano (MH 94).
Ao definir a inteligência artificial, o Papa adverte contra o equívoco de identificá-la com a inteligência humana (MH 99). Embora esses sistemas sejam capazes de processar enormes quantidades de dados e superar os seres humanos em velocidade e capacidade de cálculo, eles não possuem experiência, consciência, corporeidade, liberdade moral nem capacidade de amar. Podem simular empatia, amizade ou aconselhamento, mas não compreendem verdadeiramente o significado do sofrimento, da responsabilidade, da fidelidade ou do amor. Sua aprendizagem não resulta de um crescimento interior, mas de uma adaptação estatística baseada em dados (MH 99).
É, nesse ponto, que emerge a principal preocupação antropológıca da Encíclica. O problema fundamental da inteligência artificial não é apenas aquilo que ela faz, mas a concepção de ser humano que acaba promovendo. Nesse sentido, Leão XIV ressalta que o discernimento ético não pode limitar-se a perguntar se determinado sistema é utilizado para fins bons ou maus; é necessário questionar também quais valores, prioridades e visões de pessoa e de sociedade estão inscritos em seus algoritmos e modelos (MH 104).
Entre os riscos apontados pelo Papa, destacam-se a delegação excessiva das capacidades humanas, o enfraquecimento da criatividade e do pensamento crítico, a aparência enganosa de objetividade das decisões algorítmicas, a manipulação da informação, a violação da privacidade e a criação de relações artificiais que substituem os vínculos humanos autênticos (MH 100; 102). Soma-se a isso a crescente concentração de poder no ambiente digital e a opacidade de muitos sistemas, tornando difícil identificar responsabilidades e corrigir injustiças (MH 105).
Diante desses desafios, Leão XIV propõe responsabilidade, transparência, prudência e regulação. Não basta desenvolver uma inteligência artificial mais sofisticada; é necessário garantir que ela permaneça subordinada à dignidade da pessoa humana e ao bem comum (MH 105-107).
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