InícioCidadesQuestão de sobrevivência - Tribuna do Norte

Questão de sobrevivência – Tribuna do Norte

Publicado em

spot_img


Redação Tribuna do Norte




00h00

Sobrevivo porque volto às minhas lembranças com frequência. Sou escravizado por minha memória. Então,quem viu como vivi e sofri em 1982, quando tive a primeira chance de confrontar meu pai e achar que o mundo era meu, a seleção atual é uma afronta. Aos dois, a meu pai derrotado de 1950 e a mim, fulminado em 1982 por Paolo Rossi no Estádio Sarriá que nem existe mais.

O próprio Rossi,morto em 2020, define em frase, muito mais do que em meus cansativos parágrafos, o que é o futebol desde a época dele, um atacante magrinho e magistralmente oportunista: “ O futebol hoje é feito de mercenários, sem romantismo nem poesia”.

E foi o verso rimado de Telê Santana, com a parte torta nos pés de Serginho Chulapa, que o bambino Paolo Rossi desconstruiu, letra a letra, minuto a minuto decisivo, enquanto jogou contra um zagueiro então inexpugnável chamado Oscar, que o vencera na disputa do terceiro lugar da Copa anterior.

O futebol foi pebolismo. Arte com os pés até onde existiram os craques. A seleção brasileira mobilizava o país em transe por dribles e gols. Nasci quase dois meses após o tricampeonato de 1970 e não me causa o menor cansaço rever aqueles 4×1 sobre a Itália.

Por ter nascido depois, cada reedição da final de 1970 me permite a sensação de estar vendo um jogo inédito. Já escrevi antes que cada reprise nos permite encontrar um detalhe invisível.

E aquela decisão construiu capítulo da pura imortalidade do futebol como jogo-espetáculo. A cabeçada de Pelé no primeiro gol crescendo quase à altura do gigante Fachetti é um marco da galeria do infinito. Pelé demonstrou a magia da realeza saltando como um robô humano, imagem que enaltece sua superioridade técnica e a perfeição física.

Deus fez Pelé. Em cada campo da vida, na música, no cinema, na ciência, nas artes plásticas, a Entidade Superior escolheu um. No futebol sempre será Pelé, que é imortal tendo jogado no tempo em que sequer se imaginava a internet e os cinemas mambembes. A Pelé, reservaram o extraordinário que fluía dos seus pés e de todas as partes do seu corpo.

Há, ainda em 1970, o segundo gol, marcado pelo Canhotinha de Ouro Gerson. Reparem no YouTube e nos filmes que a bola gruda ao seu pé esquerdo e, inseparável dele, é chutada com precisão no cantinho do goleiro Albertosi.

Ainda existe e, plasticamente é uma das lindezas do futebol-arte a sequência de dribles de Clodoaldo que chega ao passe de Pelé, medido, ao chute nuclear de Carlos Alberto Torres no quarto gol.

Tenho documentários de 1958 e uma certa dúvida sobre a qualidade majoritária do escrete de doze anos depois. Ora, naquela Copa na Suécia, a nossa primeira, o Brasil apresentou ao mundo um Pelé sobrenatural de 17 anos, adolescente feito macho e um Garrincha extraordinário em seus dribles de feitiçaria.

E Didi? O que dizer do Míster Futebol, a elegância de um chanceler, a nobreza de um monarca, descobrindo caminhos invisíveis aos triviais? Didi acalmava o time e dele se apropriava em seus passes e chutes de curva. Ninguém será melhor armador do que Didi pelos séculos afora e sou obrigado a enxergar a brutalidade dos Casemiros.

O Brasil exibia seu molejo nas peladas ao ritmo do samba e do futebol. Nas cinco Copas ganhas, havia luminosidade individual. Em 1962, Garrincha foi ele, Pelé e o país no gelo dos Andes chilenos. No mundo, ainda não apareceu algo similar. E, para minha revolta, Garrincha, em opiniões bestiais de hoje, gravita pelo 10o, 15o lugar entre os melhores de todos os tempos.

Entendo, hoje, porque meu pai muitas vezes chorava ao relembrar dos craques de 1950, Barbosa, Danilo Alvim, Zizinho, que Pelé imitava e Ademir Menezes, um goleador sem ressalvas. É duro vê-los esquecidos, enquanto obtusos ganham fama e dinheiro.

Daí minha adoração pelo time de 1982, por Romário e Bebeto em 1994, por Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo em 2002. Puxe os fios da memória e eles saltarão viçosos, ousados, atrevidos.

Sempre serei pelos craques, embora hoje o futebol os violente, no discurso e na prática de um negócio milionário onde a bola tornou-se um utensílio dispensável.

Daí não me importar com essa seleçãozinha de Carlo Ancelotti, formada por nerds e dissociada do povo. Vejo a Copa, insisto, como um torcedor frio, conformado e nem um pouco preocupado se conquistaremos o sexto título. Sobrevivo assim.

Delirantes
A vitória de 3×0 sobre a Escócia pertence aos delirantes. A idade nos dá a razão do equilíbrio. O Brasil meteu um gol entregue pelos tomadores de uísque, Vini. Jr fez o segundo e continua jogando bem, dentro do possível e o terceiro foi um brinco de passe de Bruno Guimarães para Matheus Cunha.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

Veja a matéria completa aqui!

Últimas Notícias

IA e Big Techs lideram perdas nas bolsas

As bolsas internacionais encerraram a terça-feira 23 em queda, pressionadas principalmente pela forte correção...

Como os R$ 450 de GTA 6 se traduzem para o Brasil: temos um novo padrão?

Como os R$ 450 de GTA 6 se traduzem para o Brasil: temos um...

Veja Também

IA e Big Techs lideram perdas nas bolsas

As bolsas internacionais encerraram a terça-feira 23 em queda, pressionadas principalmente pela forte correção...

Como os R$ 450 de GTA 6 se traduzem para o Brasil: temos um novo padrão?

Como os R$ 450 de GTA 6 se traduzem para o Brasil: temos um...