Soa portentosa a cifra de US$ 2 trilhões para financiar o enfrentamento global da mudança climática, alcançada pela primeira vez em 2024. Comparável ao PIB do Brasil naquele ano, ainda assim essa montanha de recursos se configura alarmantemente inadequada para equacionar o maior desafio planetário de médio e longo prazos.
O relatório da Iniciativa de Política Climática (CPI, na sigla em inglês), divulgado na segunda-feira (22), aponta que investimentos em transição energética, mitigação de emissões de carbono e adaptação a eventos extremos estão em desaceleração. A organização sem fins lucrativos estima que, no ano passado, o quantitativo tenha crescido meros 2%, chegando a US$ 2,1 trilhões.
O incremento para fazer frente às necessidades teria de montar a dois dígitos por ano, projeta a CPI. Na presente conjuntura mundial, com a desestabilização geopolítica e econômica desencadeada por Donald Trump e sua guerra errática contra o Irã, parece improvável mais investimento para estancar o aquecimento global —o risco maior é de haver o contrário, dado o negacionismo imperante na Casa Branca.
Coincidência ou não, as investidas do mandatário americano têm por alvo áreas com abundantes reservas de combustíveis fósseis (petróleo e gás natural), do Irã à Venezuela e à Groenlândia.
Governos do mundo todo redirecionam recursos para defesa, como ocorre na Europa, e para aumentar a autossuficiência em energia fóssil diante da turbulência, com mais investimento em prospecção e extração.
Com isso, avança lentamente a aplicação de fundos na redução de emissões, com a descarbonização de fontes de energia. Embora isso consuma a maior parte do investimento, ou US$ 1,9 trilhão em 2024, seria necessário atingir US$ 7,8 trilhões anuais em quatro anos e US$ 9 trilhões entre 2031 e 2035.
Não surpreende, assim, que o grosso do financiamento climático venha do setor privado (US$ 1,2 trilhão), ante US$ 763 bilhões de recursos públicos. Pior: dessa segunda fatia, só US$ 198 bilhões seguiram para outros países e não para aplicações domésticas, um recuo de 6% em relação a 2023 (US$ 210 bilhões).
Frustra-se, dessa maneira, a expectativa de países menos desenvolvidos de que governos de nações mais ricas aumentem sua contribuição para conter as temperaturas globais, os eventos extremos, como a elevação do nível do mar, e seu impacto sobre populações mais vulneráveis.
Dito de outra maneira, a pauta da justiça climática permanece no centro dos impasses da negociação internacional que tanto prejudicaram o resultado da COP30 em Belém do Pará.
A próxima conferência do clima ocorrerá no final deste ano em Antália, na Turquia. Nada de muito promissor se deve esperar, a julgar pelas tratativas da reunião preparatória em Bonn. Como de hábito, o tema das finanças impediu avanço significativo.

