Autoridades do Talibã estiveram em Bruxelas nesta terça-feira (23) para discutir com a União Europeia o retorno de afegãos exilados ao país de origem. Foi a primeira vez que representantes do regime talibã foram recebidos pela UE. O encontro provocou indignação entre defensores dos direitos humanos.
Uma autoridade afegã, sob condição de anonimato, afirmou que as reuniões foram construtivas e que se pode esperar que levem a “desdobramentos positivos”.
Markus Lammert, porta-voz da Comissão Europeia, confirmou a realização de uma reunião de “caráter técnico” entre representantes de países europeus e autoridades afegãs responsáveis por questões de retorno e readmissão de migrantes.
Segundo Bruxelas, os países da UE desejam priorizar o retorno ao Afeganistão de “indivíduos que representam uma ameaça à segurança e de criminosos que cometeram infrações graves”.
Cerca de 15 Estados-membros participaram do encontro que, de acordo com Lammert, permitiu dar continuidade às discussões técnicas iniciadas em uma reunião anterior realizada em Cabul, em janeiro de 2026. As conversas se concentraram especialmente na identificação das pessoas repatriadas, na emissão de documentos de viagem e nos procedimentos de retorno.
O Talibã voltou ao poder em 2021, após duas décadas de guerra e a retirada das forças dos Estados Unidos do Afeganistão. No entanto, seu governo não é reconhecido pela UE.
Desde então, o grupo tem destacado a restauração da segurança em um país que, anteriormente, enfrentou décadas de conflitos e inúmeros ataques. “Não vamos reconhecer o regime do Talibã, certamente que não, mas, ainda assim, acho importante conversar com eles [sobre questões migratórias]”, havia enfatizado o comissário europeu Magnus Brunner cerca de dez dias antes.
A reunião em Bruxelas desencadeou uma onda de críticas de organizações e defensores dos direitos humanos, entre eles a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz Malala Yousafzai. A ativista paquistanesa afirmou estar “abalada e profundamente perturbada” com a visita, acusando as autoridades talibãs de “prender, espancar e executar mulheres que ousam se manifestar ou desafiar suas regras”.
A ONG Anistia Internacional organizou um breve protesto em frente à sede da Comissão Europeia. “Os países da UE abalam sua credibilidade ao condenar os abusos do Talibã e exigir responsabilização, por um lado, enquanto cooperam com o grupo em retornos forçados, por outro”, afirmou a Human Rights Watch (HRW).
Em resposta às críticas, a Comissão Europeia sustenta há semanas que a reunião, coordenada com a Suécia, ocorreu em âmbito técnico e não diretamente com os principais líderes do regime afegão.
O encontro sucedeu duas viagens anteriores de autoridades europeias ao Afeganistão para tratar da mesma questão, observou o braço executivo da UE.
Os países da UE receberam aproximadamente 1 milhão de pedidos de asilo de afegãos de 2013 a 2024, segundo a agência de estatísticas do bloco. Cerca de metade desses pedidos foi aprovada no período.
Cerca de 20 países da UE buscam mecanismos para repatriar migrantes ao Afeganistão. Em carta enviada em outubro, esses Estados-membros solicitaram a Bruxelas a apresentação de “soluções diplomáticas e práticas” para avançar na questão.
Nesta terça, a delegação talibã foi liderada por Abdul Qahar Balkhi, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Afeganistão.
Cinco representantes do Talibã receberam autorização para entrar na Bélgica, segundo um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores belga. Posteriormente, uma pessoa a par das discussões confirmou a presença do grupo em Bruxelas.
Os vistos foram concedidos após uma análise dos perfis dos cinco integrantes pelos serviços de inteligência belgas. De acordo com as autoridades, a avaliação concluiu que eles não representavam ameaça à segurança.

