A PF (Polícia Federal) deflagrou na manhã desta terça-feira (23) a Operação Miragem, com o objetivo de desarticular um complexo esquema fraudulento voltado à prática de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, no âmbito da gestão de instituição financeira Digimais, do grupo do bispo Edir Macedo.
Segundo a PF, mais de R$ 670 milhões vinculados ao banco foram bloqueados, e os investigados tiveram seus direitos de sigilo bancário e fiscal afastados. Mais de 50 policiais federais cumprem nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo.
A operação retoma a memória do mercado sobre os problemas causados pelo Banco Master, bem como a possibilidade de instituições financeiras estarem atreladas a esquemas complexos de corrupção.
Gustavo Moreira, planejador financeiro pessoal e especialista em investimentos, diz que apesar de ainda ser cedo para tecer uma comparação concreta com o caso Banco Master, o cenário já está sendo ventilado por analistas do mercado financeiro.
Segundo o especialista, o que mais desperta atenção do mercado são os pontos de contato estruturais entre as instituições identificados até o momento, como a suspeitas de manipulação contábil, utilização de instrumentos de mercado para preservar uma aparência de solidez financeira e vínculos com ativos de difícil comprovação.
“O caso Master levou meses até que sua real dimensão fosse compreendida. A Operação Miragem deu seus primeiros passos, e o avanço das apurações permitirá mensurar a extensão dos problemas, caso se confirmem”, explica.
No entanto, o especialista salienta: “Fechar os olhos para as semelhanças que já aparecem também não seria rigoroso”.
Motivações para investigação
O Master passou por uma liquidação no final de 2025 após a constatação de fabricação de carteiras de crédito insubsistentes e comercialização de CDBs (Certificados de Depósito Bancário) considerados impraticáveis, utilizando o FGC (Fundo Garantidor de Crédito) como garantia.
O banco de Edir Macedo, por sua vez, está sendo investigado, até o momento, por manipulação de balanços e resultados da instituição, com a finalidade de ocultar a real situação financeira da empresa.
O produto principal comercializado pelas duas instituições também é diferente: enquanto o Master ficou conhecido pelos títulos de renda fixa sem lastro real, o Digimais destaca em seu site oficial o feito de já ter emprestado mais de R$ 1 bilhão em operações de crédito desde o início de suas operações, em 1981.
Com o início das operações de consignado da instituição no ano passado, a carteira de crédito do banco passou a ser focada em financiamento de veículos (52%) e crédito consignado (42%) – os principais negócios da empresa, segundo apresentação institucional.
Entretanto, o Digimais também apresenta irregularidades que chamaram atenção do Banco Central e a Polícia Federal.
Segundo Moreira, o Digimais teria recorrido a fundos de investimento como forma de viabilizar a continuidade da emissão de títulos de captação, entre eles CDBs, mesmo diante de um quadro de deterioração financeira.
“O mecanismo investigado guarda semelhanças com o que foi apurado no caso anterior: a oferta de taxas de retorno acima do mercado, com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) funcionando como fator de atração para o investidor. As informações, contudo, ainda carecem de confirmação oficial, uma vez que a operação segue em fase de apuração”, avalia.
Presença de estados e municípios no modelo de negócio
Na linha dos consignados, o Banco Digimais também possui convênios com a Prefeitura de São Paulo e o governo de São Paulo, que representam 60% e 25% da carteira de convênios da instituição, conforme apurado pela CNN.
São mais de 69 convênios públicos, um ponto que pode ser visto em comum entre os dois bancos.
Investigações do Banco Master no fim do ano passado concluiram que regimes próprios de previdência de 18 estados e municípios tinham valores bilionários aplicados em letras financeiras da instituição de Daniel Vorcaro.
Alto risco e baixa recomendação pela compra de ativos
Antes de ser liquidado, o Master já estava no radar do mercado e dos reguladores por seu modelo de negócios.
Especialistas apontavam que o banco emitia papéis garantidos pelo FGC e pagava taxas de retorno muito acima da média do mercado (cerca de 140% do CDI), um modelo considerado problemático.
Na última segunda-feira (22), um dia antes das investigações envolvendo o Digimais, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou o rating nacional do banco e apontou a possibilidade real de quebra do banco do bispo Edir Macedo.
A agência avaliou em sua decisão que a margem de segurança do Digimais é “muito baixa”, sendo a quebra da instituição financeira e/ou calote uma “possibilidade real”.
“A capacidade de o banco manter suas operações sem suporte é altamente vulnerável a uma deterioração do ambiente de negócios e econômico”, diz a decisão.
De acordo com a agência, as incertezas em torno do perfil financeiro do banco, agravadas pela ausência de informações, impedem uma avaliação consistente sobre sua posição de capital, sua liquidez e suas estratégias futuras.
Tentativas de venda
Ambos os bancos também passaram por tentativas de venda frutradas. Antes da liquidação do Master, o BRB (Banco de Brasília) fez uma proposta bilionária para a compra da instituição financeira.
O BRB iria adquirir 49% das ações ordinárias, 100% das preferenciais e, consequentemente, 58% do capital total do Master, o equivalente a R$ 23 bilhões em ativos, garantindo voto no conselho de administração.
O Banco Central rejeitou a tentativa.
Posteriormente, a Fictor Holding Financeira anunciou a compra do Banco Master, ação suspendida após a liquidação decretada pelo BC.
Em abril deste ano, o BTG Pactual fechou acordo para comprar o banco Digimais por um valor não divulgado. O acordo, segundo o anúncio, seguia as novas regras para instituições associadas ao FGC aprovadas no ano passado, após a crise do Banco Master.
A oferta do BTG Pactual ainda precisa ser aprovada pelo Cade e Banco Central.
Possível liquidação
Do ponto de vista oficial, o BC ainda não sinalizou se liquidará a instituição de Edir Macedo como fez com o Master.
“No entanto, a possibilidade já era cogitada por agentes do mercado mesmo antes da operação desta manhã, sobretudo diante da magnitude do deficit apontado pelas investigações”, diz Moreira.
Moreira diz ainda que um eventual processo de liquidação representaria um ônus estimado em torno de R$ 8 bilhões para o FGC, cifra que, em sua avaliação, confere à decisão um grau elevado de sensibilidade regulatória.
“O desfecho, porém, dependerá do ritmo das apurações e, sobretudo, de um posicionamento formal do regulador”, afirma o especialista.

