Matteus Fernandes
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21h00


PH Dias
Matteus Fernandes
Repórteres
Salas de aula, biblioteca, laboratório e espaço de convivência são alguns dos elementos que fazem parte de uma instituição de ensino. Não é diferente na Escola Estadual Professor Luís Soares, no bairro Dix-Sept Rosado, zona Oeste de Natal, mas por um período as grades de proteção da unidade remetiam a um lugar totalmente diferente: o “Carandiru”, nome do que foi o maior presídio da América Latina. O estigma nasceu em meio a um contexto de vulnerabilidade e violência vivido anos atrás, que quase culminou no fechamento da escola, mas que foi superado a partir da mudança de modelo educacional e do protagonismo dos alunos.
O apelido negativo que marcava a escola de ensino fundamental (6º ao 9º ano) ganhou força na década passada, época em que a unidade lidava com dezenas de alunos “fora de faixa” (distorção idade-série), além de casos de violência e episódios envolvendo armas e drogas, conforme relatos de professores e diretores. O distanciamento dessa realidade e a superação desse estigma começou no pós-pandemia da covid-19 e, segundo a diretora Simone Alexandre, se fortaleceu em 2023 com a implementação do formato em tempo integral.
Porém, o que consolidou a transformação da Escola Luís Soares aconteceu dois anos mais tarde. Em 2025, o colégio foi o primeiro vencedor do Prêmio Estadual de Educação Fiscal no Rio Grande do Norte. O reconhecimento elevou a autoestima da comunidade escolar, deu novas perspectivas aos alunos e ensejou a criação de um núcleo permanente focado em projetos especiais e olimpíadas estudantis.
Hoje cursando o 1º ano do ensino médio, o estudante Hilberth Lucas, 17 anos, participou da criação do projeto vencedor “Minha Escola Depende da Nossa Cidadania”, no ano passado. A iniciativa abordou de maneira lúdica, com auxílio de inteligência artificial, como funciona e para que serve o pagamento de tributos na sociedade. O aluno desenvolveu o roteiro, produziu imagens e apresentou o conteúdo à comissão do prêmio.
“Quando eu fui com o professor lá para apresentar, eu pude ver muitos profissionais, muitos professores e até quem não é professor. E eu vi como funciona todo esse processo da educação e me senti feliz. Eu senti que o que eu estava fazendo na escola valia a pena”, afirmou o jovem.


Quem acompanhou o estudante foi o professor de geografia, Allan Avalos. A participação no prêmio, de acordo com o educador, veio após proposição do coordenador pedagógico da escola. A primeira conquista abriu um horizonte que antes nem era cogitado pela comunidade escolar. Para completar, veio a medalha na Olimpíada do Tesouro Direto de Educação Financeira no mesmo ano.
Os prêmios em 2025 estimularam o professor a criar, neste ano, um núcleo voltado à participação de iniciativas estudantis. “Esse grupo é resultado dessas premiações. Não havia núcleo na escola antes disso. A partir dos bons resultados que a gente colheu no ano passado, este núcleo surgiu, para que a gente possa continuar essa pegada. A ideia é transformar essa questão científica em algo mais cultural da escola”, detalhou Allan Avalos.
Embora o Prêmio Estadual de Educação Fiscal tenha rendido recompensa financeira, revertida em investimento na escola, a diretora Simone Alexandre destaca que o efeito promovido por essa conquista na comunidade escolar foi o mais importante.
“A principal importância, a gente sempre fala que nem foi ganhar o prêmio, mas é que esses meninos possam se ver como capazes de produzir conteúdos como esse, de pensar. Porque muitas vezes eles não se enxergam capazes”, pontuou ela.
O aluno Hilberth Lucas relembra o sentimento quando contou à família que havia ganhado o prêmio. “Principalmente a minha mãe, quando soube que eu fui lá representar o projeto e que conseguimos ficar em primeiro lugar, ela ficou muito orgulhosa. Tipo assim, sair falando para a família, para a tia, para a irmã”, recorda.
O jovem é morador do bairro Dix-Sept Rosado, assim como o perfil da maioria dos estudantes da escola. Hoje ele estuda em um curso técnico em meio ambiente integrado ao ensino médio, diz guardar com carinho a formação no ensino fundamental e sente que contribuiu para a transformação da escola.
“Eu passei muitos anos naquela escola. No primeiro ano em que ela se tornou integral, eu estava lá. E aí você vê que a cada ano uma coisinha vai melhorando, e fazer parte de algo que vai transformar a escola é realizador. Sinto que sempre que eu passar ali, eu vou poder olhar para aquela escola e pensar: essa escola que me formou e eu tenho um pedaço dela dentro de mim”, afirmou Hilberth Lucas.
Núcleo tentará bicampeonato no Prêmio Estadual de Educação Fiscal
Na primeira edição do Prêmio Estadual de Educação Fiscal, o projeto vencedor apresentou os personagens animados Pedro Cidadão e Tributinho. A iniciativa se propôs a introduzir a temática de impostos ao público infantil e tornar o assunto acessível aos futuros contribuintes.
Seguindo os passos da turma passada, a Escola Luís Soares se propôs mais uma vez a participar do prêmio. Neste ano, como parte do núcleo de projetos permanentes, o material inscrito teve coordenação estudantil da aluna do 9º ano, Alice Emília, 15 anos.


“Antes eu não tinha ideia do que era imposto. Tipo, eu sabia que minha avó precisava pagar aquilo, que meus familiares pagam, mas eu não sabia o porquê, o para quê. Eu não tinha a menor ideia. Depois que o professor Allan deu a aula, ele explicou para que serve o imposto, que eu passei a entender mais”, disse ela.
Desenvolver o conhecimento sobre origem, aplicação e controle dos recursos públicos é imprescindível para que, a partir daí, os alunos consigam formular propostas. Além disso, esses também são objetivos do Programa Nacional de Educação Fiscal (PNEF), que trata o tema como uma política pública permanente, voltada à formação de cidadãos mais conscientes, participativos e comprometidos com o bem comum.
Nessa área, o Rio Grande do Norte é pioneiro e instituiu o Programa Estadual de Educação Fiscal (PEF/RN) no ano de 1997. A iniciativa foi criada para disseminar conceitos de administração pública, função socioeconômica dos tributos e cidadania, integrando a sociedade e o ambiente escolar.
A chefe do Departamento de Educação Fiscal da Associação dos Auditores Fiscais do RN (Asfarn), Mara Bezerra, explicou que a criação de um prêmio em escala estadual seguiu o exemplo da associação nacional (Febrafite), que promove o seu há 15 anos. No Rio Grande do Norte, a premiação é organizada pela Asfarn em conjunto com o Sindicato dos Auditores Fiscais do RN (Sindifern).
“A educação fiscal é um tema que vem sendo trabalhado há algum tempo, e o prêmio vem para estimular e incentivar que as escolas, os professores, os alunos e toda a comunidade a se envolverem com o assunto”, disse Mara Bezerra, que também atua como auditora fiscal.
Ela pontua que a primeira edição do prêmio já serviu ao propósito de estimular a disseminação da Educação Fiscal, com 20 escolas participantes, além de mais duas instituições. Dentre essas, a auditora fiscal não escondeu que a produção da Escola Luís Soares surpreendeu e é citada até hoje pela associação toda vez que o tema em questão é Educação Fiscal.
“Eles foram muito felizes em construir aquela história, em mostrar todos os passos. A importância da aplicação do imposto na escola, na saúde, na estrada, na segurança. Isso de uma forma que a criança, que a população alcança e entende”, afirmou Mara Bezerra. “Foi muito gratificante para nós, na primeira edição, ter um vídeo com tamanha qualidade e conteúdo tão primoroso. Realmente um documento artístico”, complementou.
O resultado não só animou as entidades do Fisco Estadual, como também a Secretaria de Estado da Educação (SEEC), que é parceira do prêmio.
“Confesso que em relação à educação fiscal, especificamente, eu tinha dúvida e ficava pensando: ‘Será que trabalhar um prêmio com o tema educação fiscal de fato é motivador? Será atrativo?’ E hoje eu não tenho mais essa dúvida. É sim. E, a partir da educação fiscal, eu chego à conclusão de que toda temática formativa pode ser motivadora, pedagogicamente viável e pode contribuir. E é uma prova de que todas as instituições da sociedade, podem contribuir com a escola pública”, disse a secretária Socorro Batista.
Escola quase fechou e mudança para tempo integral
De transformador, o desfecho na Escola Estadual Professor Luís Soares por pouco não foi drástico. “Houve situações em que essa escola esteve à mercê de fechar e, graças a Deus, ela foi reativada, no sentido de motivação com a equipe nova que entrou”. A declaração é de Vanézia Luz, lotada na SEEC desde 2013 e que atua na subcoordenadoria do Ensino Fundamental, voltada especificamente ao modelo de tempo integral.
“Essa escola estava realmente fadada ao fracasso”, afirmou Vanézia Luz. A implementação da educação em tempo integral colaborou para mudar esse prognóstico. De acordo com a diretora da escola, Simone Alexandre, o desenvolvimento de atividades extracurriculares no contraturno, aliado à promoção da segurança alimentar de jovens em situação de vulnerabilidade, é a maior vantagem desse modelo.
“A escola em tempo integral faz com que os alunos fiquem menos tempo na rua, que fiquem mais tempo na escola, mais protegidos”, pontuou a diretora.
A mesma opinião é defendida pela secretária estadual de Educação, Socorro Batista. “Eu acho que no caso da Luís Soares um fator foi mais determinante do que os demais: a oferta do tempo integral”, disse ela.


“É garantir que essas crianças e adolescentes que passam o dia na escola não vão estar nas ruas, não serão alvo da violência, das drogas, de toda essa problemática social que a gente sabe que existe nas comunidades, principalmente nas comunidades mais carentes e periféricas”, complementou a secretária.
Assim como a Luís Soares, a rede estadual conta com 248 escolas em tempo integral, o que equivale a 43% do total de instituições e corresponde a mais de 34 mil alunos matriculados nessa modalidade de ensino. A meta, de acordo com a pasta, é seguir expandindo esses números.
A escola da zona Oeste de Natal conta com 189 alunos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. Dados de 2025 do Sistema Integrado de Monitoramento e Avaliação Institucional (Simais), que monitora a qualidade do ensino ofertado pelas escolas estaduais, apontam que a maioria dos estudantes da unidade tem aprendizado de nível básico em diante. Em Língua Portuguesa, 67% dos alunos avaliados estão no nível básico, 10% em proficiente e 5% em avançado. Já em Matemática, 52% alcançaram o nível básico e 14%, o proficiente.
“A expressiva presença de alunos nos níveis Básico e Proficiente, tanto em Língua Portuguesa quanto em Matemática, evidencia uma base consistente de desenvolvimento das competências essenciais para a jornada desses jovens. Além disso, a presença de estudantes no nível Avançado em Língua Portuguesa mostra que estamos criando oportunidades para que nossos jovens alcancem níveis cada vez mais elevados de desempenho”, avaliou Socorro Batista.
Os obstáculos que ainda permanecem
Apesar dos avanços, a Escola Estadual Professor Luís Soares ainda enfrenta desafios. A diretora Simone Alexandre destacou os obstáculos que a escola enfrenta, como a necessidade de mais banheiros. Além disso, ela citou a importância de instalação de ar-condicionado em todas as salas e mencionou a falta de professores para alguns componentes curriculares. “É o que praticamente toda a escola pública enfrenta, independente de ser em tempo integral ou não”, pontuou ela.
A escola passou por obra recentemente, com um investimento de R$ 206 mil em serviços executados entre os anos de 2023 e 2024.




A secretária de Educação, Socorro Batista, reconheceu dificuldades e relembrou desafios no começo da gestão. “Quando nós chegamos aqui em 2019, isso é uma informação importante: as escolas que tinham internet é porque havia cota entre os professores para colocar. Estávamos ainda na idade da pedra lascada”, frisou.
Citou outro exemplo: “Nós chegamos aqui e encontramos uma situação que a escola fazia rifa do balão junino, fazia sorteios, para trocar a lâmpada, para pintar a porta. Isso é inadmissível. Então nós criamos o Pague Predial para dar autonomia às escolas para pequenos serviços.”
Sobre a ausência de professores, ela admite a ocorrência e cita que nem sempre é possível evitar casos em virtude de adoecimentos, afastamento por cirurgias e licenças gestantes, por exemplo.
No entanto, o principal desafio apontado pela secretária é a violência. “Essa violência chega na escola muitas vezes em forma de bullying, de racismo, de todas as formas de preconceito, de intolerância. Então esse tem sido, na minha visão, o maior desafio hoje e é uma problemática que inclusive tem causado situações muito tensas nas escolas, de adoecimento dos estudantes”, alertou.
Futuro promissor
Apesar dos problemas, a direção, o corpo docente e os alunos da Escola Estadual Professor Luís Soares já mostraram que sabem driblar os gargalos a partir da seguinte receita: escola em tempo integral mais fortalecida, formação cidadã, incentivo ao conhecimento científico e trabalho em equipe.


Esses quatro ingredientes foram fundamentais para mudar o patamar de ensino e garantir um futuro mais promissor para os estudantes da zona Oeste de Natal.
Assim, evitando que o colégio volte a ter uma marca negativa. São os ventos da mudança em direção aos prêmios das principais iniciativas estudantis. Como diriam Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, na canção “Nada Será Como Antes”, um novo tempo está apenas começando.

