A pesquisa da XP com gestoras multimercados mostra uma mudança de posicionamento em relação a juros, dólar e Bolsa nas vésperas da decisão sobre a taxa Selic do Comitê de Política Monetária (Copom), que será divulgada nesta quarta-feira (17). Se, em abril, 100% dos gestores mantinham posições vendidas em dólar, marcando “o maior consenso já registrado na série histórica”, agora, em junho, 80% dos fundos estão comprados na moeda americana e apenas 20% seguem apostando na sua queda.
Em relação aos juros, 84% das gestoras apostam em redução de 0,25 ponto percentual na Selic, indo a 14,25%, enquanto 16% espera a manutenção em 14,5%.
A pesquisa foi feita entre 8 e 12 de junho com 25 gestoras – antes, portanto, da divulgação do acordo de paz entre Estados Unidos e Irã.
Câmbio
O intervalo entre as reuniões do Copom mostra como as mudanças no fluxo de capital global podem alterar rapidamente as estratégias dos multimercados, destacam os analistas de fundos Clara Sodré, Luiz Felippo, Pedro Frota e José Pini, no relatório.
Se, em abril, a economia levava as gestoras a aumentar as apostas no “kit Brasil” — com recomendações em bolsa brasileira, valorização do real, e calibragem de juros –, em junho o ambiente se inverteu. O câmbio, que até então era um dos principais vetores de aposta no otimismo com o Brasil, agora passou a operar como instrumento de proteção financeira. Os dados mostram essa reversão:

O movimento em relação à moeda brasileira caminha para o lado oposto. As posições compradas em real recuaram de 91% para 31%, enquanto as posições vendidas saltaram de 9% para 69%. Para os analistas da XP, essa migração de ativos “não se trata de resistir a um teste de convicção, mas de reconhecer uma possível mudança de regime de fluxo”.
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A mudança ocorreu no momento em que os investidores globais se concentravam em financiar o setor de Inteligência Artificial — puxando as bolsas asiáticas para cima —, e o mercado brasileiro caía, perdendo para outros países emergentes. Além disso, o cenário doméstico piorou com a alta do petróleo, que ressuscitou o medo da inflação e manteve as expectativas de juros altos, em meio à tensão de um ano eleitoral.
Juros
Apesar da aposta majoritária na redução de juros no curto prazo, a convicção sobre a extensão do ciclo de afrouxamento monetário diminui. Na visão de longo prazo, houve continuidade na elevação das expectativas para a Selic ao final de 2026, que atingiu 14,1%, impulsionada pelos riscos inflacionários e pela dinâmica global de energia e commodities. A inflação projetada para 2026 pelos fundos também subiu, fixando-se em 5,2%.
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No cenário internacional, 100% dos gestores aguardam a manutenção dos juros nos Estados Unidos.
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O apetite pelo mercado acionário local também perdeu tração, apontam os analistas. O levantamento indica uma redução das posições compradas na bolsa brasileira, que recuaram de 71% em abril para 60% em junho. Em contrapartida, as posições vendidas em ações nacionais dobraram, passando de 10% para 20% no mesmo período.
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Esse recuo reflete uma leitura mais cautelosa sobre a economia nacional. Segundo os dados compilados, a parcela de gestores com uma visão negativa sobre o cenário doméstico dobrou de 19% para 38%, enquanto a perspectiva positiva estacionou na faixa dos 24%.
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Contudo, os especialistas ressaltam que esse reposicionamento da gestão não traduz um pessimismo estrutural definitivo com os ativos locais. O aumento de posições neutras em carteira sugere, na verdade, uma tática de preservação de capital até que haja maior clareza sobre o controle da inflação, a trajetória da política monetária e os desdobramentos do quadro eleitoral.

