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Álbum da Copa vira campanha por desaparecidos no México – 06/06/2026 – Mundo

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Às vésperas da abertura da Copa do Mundo, familiares de pessoas desaparecidas no México tentam transformar o torneio da Fifa em uma vitrine internacional para denunciar a crise de desaparecimentos no país. Entre as iniciativas estão a produção de cartazes de busca em formato de figurinhas e a realização de manifestações em frente a estádios.

O México, que recebe o megaevento esportivo ao lado de Estados Unidos e Canadá, registra 132,5 mil casos de pessoas com paradeiro desconhecido, segundo dados do Sistema Nacional de Segurança Pública. Este número seria suficiente para lotar uma vez e meia o Estádio Azteca, na Cidade do México, com capacidade para 83 mil pessoas.

O estádio mexicano será sede de cinco partidas da Copa, incluindo a de abertura, no dia 11 de junho. Na mesma data, famílias buscadoras —especialmente pais e mães que procuram seus filhos desaparecidos de forma independente— planejam uma manifestação nas imediações do complexo esportivo.

Em Guadalajara, no estado de Jalisco, a cerca de 550 km da Cidade do México, o ativista Hector Flores, fundador do Coletivo Luz de Esperança, prepara-se para participar dos protestos na capital do país. Em paralelo, ele e outros familiares promovem uma série de ações na cidade sob o lema “Guadalajara, capital mundial dos desaparecidos”.

A estratégia do grupo, que reúne cerca de 400 famílias buscadoras, é aproximar a pauta dos desaparecidos do universo do futebol. No cenário festivo, os cartazes de busca, presença histórica na paisagem da cidade, disputam espaço e atenção com as propagandas do torneio. Para romper essa barreira e dialogar com o imaginário dos torcedores, o coletivo decidiu adaptar sua principal ferramenta de mobilização à linguagem do Mundial.

O resultado são cartazes que reproduzem figurinhas inspiradas nos tradicionais álbuns da Copa do Mundo da Panini. No lugar das imagens de jogadores da seleção mexicana, aparecem fotografias de pessoas desaparecidas vestidas com a camisa da equipe nacional. As peças estão sendo espalhadas por diferentes pontos da cidade e compartilhadas nas redes sociais de familiares, coletivos e ativistas.

Outra iniciativa são as “Caritas por la Memoria”, partidas de futebol informais promovidas por familiares, ativistas e apoiadores da causa. Os jogadores entram em campo com camisas estampadas pelos rostos das pessoas desaparecidas, numa tentativa de levar a pauta das buscas para dentro do universo que mobiliza milhões de mexicanos e visitantes às vésperas da Copa do Mundo.

“Não há problema em gostar da Copa”, diz Flores. “O problema é esquecer que precisamos continuar nomeando as pessoas desaparecidas enquanto há gastos excessivos com estética e espetáculo, quando esses recursos poderiam ser utilizados na busca e investigação”.

Crise em Jalisco

Base do Cártel Jalisco Nueva Generación (CJNG), uma das organizações criminosas mais poderosas do México, o estado de Jalisco lidera o número de desaparecidos no país, com cerca de 16 mil registros. A influência do grupo voltou a ficar evidente em fevereiro, após uma operação policial que resultou na morte de um líder do cartel.

O filho de Flores faz parte das estatísticas. Em 2021, Héctor Daniel Flores Fernández, então com 19 anos, foi retirado da casa onde vivia com a namorada, em Guadalajara, por homens que se apresentaram como integrantes da Fiscalía Estatal, órgão equivalente ao Ministério Público e à Polícia Civil no Brasil.

Flores diz acretidar que o filho foi vítima de recrutamento forçado por grupos ligados ao narcotráfico. Desde então, percorre as ruas da cidade, promove eventos, participa de manifestações públicas e acompanha o caso na Justiça. Seu lema, compartilhado por muitas famílias de desaparecidos, é: “Até encontrá-lo, Héctor”.

Em junho de 2025, um tribunal federal reconheceu o caso de Héctor como desaparecimento forçado com participação de agentes do Estado e determinou que as autoridades empregassem todos os esforços para localizá-lo. Flores, porém, segue sem informações sobre o paradeiro do filho.

Para o advogado Eduardo Guerrero Lomelí, coordenador da área internacional do Centro de Direitos Humanos Miguel Agustín Pro Juárez (Centro ProDH), a Copa do Mundo será uma oportunidade para dar visibilidade a casos como o de Héctor. “Esses informes não chegam a um público mais amplo. Com o Mundial, espera-se que pessoas fora deste mundo jurídico e de direitos humanos recebam informações sobre a crise que o México vive.”

Manifestações internacionais

A principal causa dos desaparecimentos é atribuída ao narcotráfico. Cartéis mantêm esquemas de sequestro, recrutamento forçado e falsas ofertas de emprego. Muitas vítimas acabam submetidas a condições análogas à escravidão e forçadas a trabalhar para grupos criminosos.

Para especialistas e ativistas, a incapacidade do Estado de combater os desaparecimentos é agravada pelo envolvimento de agentes públicos com organizações criminosas. Em relatório publicado em maio, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), vinculada à OEA, afirmou que há desaparecimentos cometidos diretamente por agentes estatais e que o crime organizado frequentemente atua em estreita relação com funcionários públicos.

Pouco antes, em abril, o Comitê das Nações Unidas contra o Desaparecimento Forçado pediu que a Assembleia-Geral da ONU discutisse a situação mexicana, após identificar indícios de que os desaparecimentos forçados podem configurar crimes contra a humanidade. O órgão também alertou para a existência de mais de 4.500 valas clandestinas e cerca de 72 mil restos humanos não identificados, quadro que alimenta uma grave crise forense no país.

Uma dessas valas foi encontrada em novembro de 2025 durante a construção de um edifício residencial a cerca de 10 quilômetros do Estádio Guadalajara, que receberá jogos da Copa do Mundo. Segundo autoridades e grupos de vítimas, foram localizadas no local 270 sacolas com restos humanos correspondentes a 62 pessoas.

Coletivos buscadores

Flores e Lomelí afirmam que os governos, especialmente os municipais, tentam reduzir a visibilidade dos casos, removendo cartazes afixados em praças e ruas. Com a Copa do Mundo, dizem, essas ações de “limpeza” se intensificaram.

Em Guadalajara, por exemplo, a Anistia Internacional denunciou uma tentativa de retirada dos cartazes de buscas da Glorieta dos Desaparecidos, nome dado por familiares ao monumento Glorieta dos Niños Héroes, no centro da cidade. Construído em homenagem aos cadetes que lutaram contra a invasão dos Estados Unidos no século 19, o local hoje está coberto por imagens de pessoas desaparecidas e se tornou um dos principais pontos de encontro dos grupos buscadores.

Para Lomelí, a proliferação de grupos buscadores “demonstra tanto o agravamento da crise quanto a incapacidade do Estado de procurar as pessoas desaparecidas”. Ele destaca que esses ativistas enfrentam também ameaças de grupos criminosos. Desde 2010, o Centro ProDH registrou 30 casos de buscadores mortos ou desaparecidos.

Procurado pela reportagem, o governo federal enviou como resposta uma entrevista coletiva realizada em março na qual a presidente Claudia Sheinbaum afirmou que a administração mantém diálogo permanente com familiares de desaparecidos e coletivos de busca. A Fiscalía Estatal de Jalisco e o Governo Municipal de Guadalajara não responderam aos contatos.

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