InícioOpiniãoA inteligência artificial entrou no quarto das crianças - 03/06/2026 - Opinião

A inteligência artificial entrou no quarto das crianças – 03/06/2026 – Opinião

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O setor de brinquedos inteligentes já movimenta cerca de US$ 35 bilhões e pode chegar a US$ 270 bilhões até 2035. Nos EUA, Mattel e OpenAI anunciaram uma parceria para criar experiências educativas baseadas em modelos generativos, enquanto na China mais de 1.500 empresas prometem ser responsáveis por 40% da expansão global na próxima década.

Mas o que são brinquedos inteligentes? São bonecos, pelúcias ou dispositivos conectados a uma inteligência artificial e que são projetados para ouvir, falar, lembrar de conversas anteriores e, enfim, interagir com a criança de forma espontânea e natural.


Do ponto de vista educacional, a tecnologia é revolucionária. É possível personalizar o aprendizado ao estilo de cada criança e reforçar habilidades cognitivas conforme as necessidades de cada uma. Isso é particularmente bem-vindo no caso de crianças neurodivergentes. Também é bem-vindo em muitas famílias que, ocupadas, encontram nesses brinquedos um amigo sempre disponível, paciente e a fim de brincar. Compreende-se, portanto, o sucesso de brinquedos como o BubblePal, que vendeu 200 mil unidades em pouco mais de um ano.

Como é típico de produtos regidos por algoritmos, brinquedos com IA são feitos para maximizar o engajamento. Isso implica tornar a interação prazerosa, coisa que o verdadeiro aprendizado nem sempre é. O verdadeiro aprender exige quebrar a cabeça e insistir até descobrir soluções por conta própria. Exige aesforço e perseverança. Os brinquedos inteligentes se propõem ao oposto: a entregar o conhecimento pronto e imediato, transformando tudo em experiência agradável, sabor baunilha. O potencial de revolucionar o aprendizado se dissolve na lógica de maximizar o engajamento.


Outra coisa que se dissolve é o saudável contato com o tédio. Tão importante quanto apegar-se a um ursinho de pelúcia é cansar-se dele e descobrir um interesse novo: uma bola, uma bicicleta, um jogo de tabuleiro. Um brinquedo feito para maximizar engajamento (que aprende e se adapta aos interesses mutáveis de uma criança que cresce) não deixa espaço para o “sem graça” nem para o novo amigo.

A amizade é real. Uma pesquisa feita entre adolescentes americanos de 13 a 17 anos revelou que um terço acredita que conversas com companheiros de IA são tão satisfatórias quanto conversas com pessoas de verdade, e 12% compartilham com as IAs informações que não revelariam a amigos ou familiares.

Elas estão ouvindo. Um instituto de pesquisa americano testou quatro brinquedos inteligentes e descobriu que um deles permanecia ouvindo mesmo dez segundos após o fim da interação; outro ouvia o tempo todo. O tempo todo enviava à central dados de voz —dados sensíveis que podem ser interceptados por hackers mal-intencionados.


Mas o dano nem sempre vem dos hackers. Às vezes, vem do próprio brinquedo. O mesmo instituto constatou que 27% das respostas dos brinquedos inteligentes são impróprias para menores e documentaram instâncias em que elas fazem referências a sexo, drogas, automutilação ou onde encontrar objetos cortantes. De fato, 74% dos pais entrevistados disseram ter medo de o brinquedo fazer alguma sugestão perigosa a seus filhos.

O que fazer diante desse cenário? Opiniões divergem. O Guard Act americano proíbe por completo o uso de companheiros de IA por menores de 18 anos. O AI Act europeu proíbe apenas a manipulação e a incitação a atos perigosos. Regula, audita, alerta, mas permite o uso desses companheiros por menores.


Já o Unicef, amparada na Convenção sobre os Direitos das Crianças (da qual o Brasil é signatário), defende uma IA centrada na criança, com proteção de dados, direito ao esquecimento e supervisão humana em decisões de maior impacto.

Enquanto discutem, o mercado avança. Uma pesquisa com famílias americanas com filhos de até oito anos mostrou que 49% já adquiriram brinquedos com IA e 12% dessas crianças os utilizam diariamente. O desafio dos pais (e de todos nós, enquanto sociedade) é permitir que brinquedos conectados não desconectem nossas crianças da essência do brincar.

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